Narrativas urbanas de uma Curitiba enigmática, subjacente, contraditória... e de sua gente que vive, ama e sonha, sempre oculta nas sombras.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Uma noite para Raquel

Rostinho moreno escondido entre as mãos ossudas, semblante triste, lágrimas grossas e quentes a rolar copiosas dos olhos já meio doloridos, Raquel olhava o nada; pensamento longe, coração palpitante, ruindade no estômago, toda ela era só lamento, desolação. Sentia-se fraca, infeliz, enganada mais uma vez por um destino que, sem querer, teimava em repetir-se, impiedoso. Ele fora embora. Saíra há meia hora, não mais. Batendo com força a porta do modesto quarto da pensão Bagdá, roupas enfiadas às pressas na pequena mochila já rota, dissera, ódio em cada palavra, que não o procurasse mais, estava farto dela; que fosse para o diabo! Para o diabo, entendia? Não suportava mais todos seus ciúmes, suas manias e achaques. Era o fim, dessa vez era o fim mesmo, não a amava! Nunca a amara! Fosse procurar outro, ele não tinha nada com isso. Quanto mais falava, mais a feria, decerto sentia prazer em ofendê-la assim. Trêmula, desesperada, a menina tentou detê-lo. Conversassem um pouco, não jogassem fora uma história tão bonita, pensasse melhor... Ele estava nervoso, havia de ser isso. Amanhã, amanhã fariam as pazes...
Súplicas inúteis, lágrimas desperdiçadas. No íntimo, sabia que André se fora para sempre, não o teria mais. Não era o primeiro a brincar com ela, jogar com seu coração. Por que as coisas tinham de ser assim? Desde o primeiro namorado, seu primeiro amor... Sempre usada, sempre insuficiente... Sentiu culpa, engatou num choro sem fim. O que seria de si? Não sabia viver sozinha! Era fraca, Deus sabia o quanto era fraca... Precisava de um homem, um companheiro, alguém que cuidasse dela, que suportasse seus defeitos... Curitiba era tão fria! Tão inóspita, ingrata... Queria colo, queria dengo, queria companhia para as noites compridas e geladas. Irritou-se, sentiu saudades do Amazonas, amaldiçoou-se por ter vindo para o sul. O que esperara encontrar? Para que vir para tão longe? Apenas para sofrer, para chorar? Não aceitava... Aos poucos, como em geral acontece com a gente insegura, a culpa foi chegando, devagarinho; um pensamento aqui, outro ali. Torturava-se.
Poderia ter agido diferente! Por que tivera aquela crise de ciúmes, ainda na semana passada? Por que não acreditava nele, quando dizia ter compromissos a noite? O defeito estava nela, só poderia estar nela... De que adiantava ser bonita? De que lhe valiam seus olhos negros, seu cabelo ondulado, o sorriso que tanto elogiavam? Queria ser feia! Sim, melhor seria ser feia, muito feia, uma bruxa; desse modo, se encontrasse alguém que se interessasse por ela, teria certeza de que era amada. Certeza, certeza... E quem, nesse mundo, pode ter certeza de alguma coisa? Não se julgara amada? Não se sentira especial, ao lado dele? E para quê? Traída... Abandonada... Mais uma vez! Outra vez! Velho erro a assombrá-la. Rolando na cama, convulsionava o corpinho muito magro, queria morrer. Lembrou-se do primeiro relacionamento, ainda em Manaus; do segundo, do terceiro, do quarto... Naquela tarde maldita, acabara-se mais um sonho, mais uma ilusão. O que ela fizera para merecer do destino prendas tão amargas e tristes?
Vinte e quatro anos. Apenas vinte e quatro anos, e já sofrera tanto! Lembrou-se da infância, dos cultos aos quais assistira com a mãe na igrejinha de madeira, velha casa onde ouvia histórias de milagres, de guerras, de reis e lugares com nomes estranhos. Os antigos profetas... Abraão, Isaque, Jacó... A mulher de Jacó tinha o mesmo nome que ela, não tinha? Lembrava-se bem. Raquel, Raquel... Nome hebraico, queria dizer ovelha. Ovelha pacífica, nome de gente mansa. Mansa! Mansa é o que ela sempre fora. Jeito autoritário, sorrisinho mandão, índole dominante. Tudo, porém, era disfarce, proteção... Só ela sabia o quanto, no íntimo, era mansinha, frágil... Lembrou de um quadro de Jesus, devia ser Jesus, fazendo cafuné numa ovelha muito branquinha, que vira numa revista, há anos. Como havia de ser bom receber cafuné, se sentir cuidada, amada por alguém... Quantas vezes, nas noites de insônia, idealizara seu príncipe encantado? Pensamentos de menina boba e nefelibata, sonhos que a idade leva embora.
Limpou o nariz e já tomava fôlego para começar nova rodada de choro quando, de um canto, ouviu o celular que apitava, insistente. Uma mensagem, duas, três. Quatro? Quem podia ser? André! Na certa era André, pedindo para voltar. Achou estranho, por que mandar mensagem? Podia voltar direto, ela cairia em seus braços logo que o visse... Não o recriminava, prometia que não. Como seria bom! Numa fração de segundo, imaginou: André arrependido, os dois abraçadinhos, a mochila dele jogada de qualquer jeito debaixo da cama, felicidade. Havia de cobri-lo de beijos, passariam uma bela noite de amor... Bastava uma palavra dele, uma só! Ansiosa, pegou o aparelho, até se atrapalhava para desbloquear a tela, tamanha excitação. Abriu o WhatsApp, coraçãozinho na expectativa. Já ensaiava o que diria, sorriu por dentro, antegozando o reencontro tão esperado. Ele ainda a amava! Não dizem que os homens fazem de tudo pela mulher que amam? Se ele voltasse, jurava que tudo seria diferente...
Ao invés de palavrinhas românticas, porém, temperadas com arrependimento e promessas, o que encontrou fê-la murchar. Quem escrevia não era outro senão o Mariano, velho Mariano, perguntando como ela estava. Cego cacete! Parece que adivinhava... Sempre que ela brigava com algum namorado, o homem lhe escrevia alguma coisa, naquele português formal que só ele usava e tanto a irritava. Perguntou como estava se sentindo, o que estava se passando... Tivera um pressentimento, sabia que ela não estava bem, nem pensasse em mentir, não nascera ainda alguém capaz de enganá-lo. Um pouco por costume, um pouco por solidão, Raquel resolveu contar tudo. Precisava desabafar, ser ouvida, a angústia era grande demais, quem sabe se sentiria melhor depois. Não era a primeira vez que tinha esse tipo de conversa com o amigo, e, sabia, por intuição, que não seria a última.
Dedinhos suados, mãos ansiosas, a menina não conseguia digitar direito. Também, quanta vergonha sentia! "Ciúme era com C ou com S?", "Como escrever "traição"? Com SS ou Ç?" Ah! Como odiava a ortografia... Ele reparava, sabia que reparava, não queria fazer feio. Como escrever? Ai, como digitar? Cadê o acento agudo? Seria esse, aqui no cantinho? Não, esse era o crase. Ah! Podia estar triste, abandonada; mas, ainda tinha dignidade, não era nenhuma analfabeta! Aliviada, aceitou de bom grado quando o amigo sugeriu que conversassem pelo telefone, para se sentirem mais próximos. Seu drama de amor merecia ser narrado direito, ora essa! Não era um assunto qualquer, para ser exposto através da escrita, sempre fria e impessoal quando se trata de sentimento. Desejava aproximar-se dela, sim; mas, no íntimo, precisava ouvi-la, ouvir cada pausa, cada hesitação, cada suspirinho. Só assim seria capaz de compreender o que se passava na mente da amiga, tão confusa e acelerada.
A pessoa que não enxerga, desde criança precisa conhecer todos os recursos da voz humana. Ao longo do tempo, aprende a modular sua fala com perfeição, ajustando cada detalhe da respiração para dramatizar, criar suspense ou mudar de tonalidade. A voz é um instrumento de comunicação e como tal deve ser afinado, regulado, dimensionado e usado. Mariano aperfeiçoara essas lições durante anos, aprendendo ao ouvir mestres como Barros de Alencar, Roberto Barreiros e Paulo Roberto de Oliveira. Valeram-lhe também os poucos meses trabalhados em rádio, dos quais sabia tirar proveito quando queria. No telefone, decidiu ser prolixo, fluente; usava uma voz redonda, quase microfônica, interessando-se por tudo quanto Raquel lhe contava. Deixava-a falar, emitia grunhidos de aprovação, perguntava, tom de veludo, o que ela estava sentindo, o que se passava consigo.
Conciliábulos intermináveis, lamentações que principiavam a azedar-lhe o fígado, o homem, ouvidos já doendo de tanta repetição, resolveu partir a coisa mais prática. "Você comeu?", perguntou, ar imperativo. A pergunta a pegou de surpresa. Não comera desde o dia anterior, e, agora que ele falara nisso, bem que estava com fome... Não soube o que responder, cortou uma frase pela metade, respirou curto. Providencial, Mariano aconselhou que comprasse uma marmita no restaurante ali da esquina, fosse depressa. Eles serviam comida o dia inteiro, era precinho popular. Aquele ali na Conselheiro Laurindo, sabia? Pertinho do tubo... Indisposta, a menina não quis. Depois comeria qualquer coisa, não se preocupasse, não sentia apetite. Era magrinha, comia pouco... Teimoso, insistiu. Precisava comer, onde já se viu? Ainda acabava desmaiando de fraqueza, se não comesse direito. Não, não. Assim, não estava certo...
Percebendo que seria inútil continuar a pedir que comesse, teve uma ideia. Seu plano para aquela noite era modesto. Iria ler um pouco, quem sabe fazer palavras cruzadas antes de dormir. Mas ela o chamou. Ela, a cidade. Curitiba, sempre esponjosa, sempre cheia de encantamento, chamou-o para o centro, e a voz de Raquel, ainda triste, fez-lhe cócegas. Sentiu-se importante. "Se eu levar-lhe uma marmita, meu anjo, você come? Ao menos, um pouquinho?" A pausa era proposital. Calculando bem o efeito, não ficou surpreso quando a moça, tímida e meio envergonhada, recusou com veemência. Não, não precisava, ele era louco? Capaz que iria sair de casa, só por causa dela... Não, ficava zangada, não queria. Não aceitando argumento, disse que, se não queria marmita, poderiam ir à uma lanchonete, ele passava pegá-la às dezenove, não se preocupasse. Antes que a menina pudesse formular nova recusa, disse que iria ao centro de qualquer jeito. Depois de comerem poderiam dar uma volta, o que ela achava? Esquecesse um pouco os problemas, não fazia mal se entregar ao feitiço urbano de quando em vez... Ao menos por algumas horas, seria feliz...
Já estava escuro quando, bengala na mão, sorriso fácil e ar muito distinto, Mariano chegou à Bagdá. Cumprimentou a dona da pensão, que conhecia há anos. Perguntou por uns e outros, aceitou um pouco de café preto, ficou esperando. A amiga não se demorou, decerto já estava pronta. Desceu a escada num passinho lampeiro, carinha ainda triste, mas olhos já sem lágrimas. Cumprimentou-o com um rápido beijo no rosto, desculpou-se por qualquer coisa, disse que podiam sair. Não aguentava mais aquelas paredes, estava sufocando! Antes de ganharem a rua, porém, discretamente, arzinho desconfiado, pediu à dona Mirthes que, se acaso André a procurasse ali, não dissesse onde ela fora. Para evitar falatórios, compreendia? Não havia nada errado, só queria sair um pouco, merecia um pouco de distração. A velha compreendeu, não dizia nada, ficasse sossegada; se divertisse, apenas tomasse cuidado com o movimento.
Indiferentes ao trânsito, aos barulhos e à faina infinita dos vendedores de rua, lá se foram, mãos dadas, seguindo a Laurindo devagar, no sentido do fluxo. Dobraram na XV, atravessaram a Santos Andrade, àquelas horas tomada por pequenos grupos de universitários que, barulhentos, conversavam e riam; cruzaram a canaleta, embarafustaram pelo calçadão, dobraram a direita. O boteco, uma portinha modesta ali na Riachuelo, muito aconchegante e discreto, já estava cheio. Meio bar, meio lanchonete, para uns era o ponto ideal para um happy hour, escapadela da rotina após um dia estressante; para outros, um bom lugar para namorar, ou apenas passar tempo; havia quem o frequentava apenas para um lanche rápido, e ainda aqueles que aproveitavam-se da insignificância do lugar para seus negócios ou amores clandestinos. A menina dizia-se indisposta, não queria comer nem beber nada, estava triste... Seu semblante foi anuviando, anuviando, quase começava a chorar outra vez.
Sentaram-se num canto, pediram bebidas e aperitivos ao garção; Raquel dizia que tudo era chato, sem André nada tinha graça, será que ele não voltara a pensão? Antes que pegasse o celular para perguntar à dona Mirthes sobre o bilontra, as bebidas chegaram. Fungando e contando lorotas sobre o namorado, disse que tomaria um golinho, decerto lhe faria bem. Não era seu costume, mas, uma vez na vida, outra na morte, não fazia mal, fazia? Quando vieram os aperitivos, resolveu comer as batatas com bacon antes que esfriassem, mas só porque Mariano fazia questão. Contou história, perguntou sobre a música que estava tocando. Depois comeu um X-Salada, e pediu mais bebida. Barriguinha cheia, começava a se sentir melhor. A cabeça foi ficando leve, leve... Não era acostumada a beber, nunca bebia assim... Era pecado, o pastor dizia. Via tudo admirada, todo o movimento de pessoas, o arrastar de cadeiras, homens escorados no velho balcão ao fundo. Sem que percebesse, riu de uma graça feita pelo amigo, fazendo biquinho logo depois. Por que ria? Não estava feliz, não podia rir... Mas, de que importava? André que fosse para o diabo, aquele grandessíssimo filho da... soluçou, disse um palavrão, não merecia isso.
A noite avançou sem que percebessem. Entre risos, confissões, princípios de choro, conversa e bebidas, Raquel contara-lhe tudo, toda a história de sua vida, tão comum, sensaborona. Falou do primeiro namorado, lá no Amazonas. Batia nela, acreditava? Era um bruto... Ela tinha só quinze anos! Quinze anos, e já apanhando que nem boi bravo... Merecia isso? Não, não merecia. Emocionava-se, entre o ódio e a tristeza. História amarga e dolorida, igual a tantas espalhadas pelo interior do país. O segundo fora um pastor, "um homem de Deus!" (fazia caretas, engrossava a voz). Julgara ter encontrado a felicidade ao seu lado, até que, depois de um ano e pouco de namoro, o flagrara numa cena romântica com outro homem. Sofrera horrores, tentara até se matar bebendo veneno para pulgões do mato, ele não entendia o que era isso... Brigara com a mãe, saíra da igreja, alugara um quarto, queria viver sozinha. Nesse tempo alguém a convidara para trabalhar num mercadinho, mas o emprego não durou muito, e logo se viu às voltas com a miséria outra vez.
Desde menina sonhava em ver gente, ver alegria, sair daquele fim de mundo no qual nascera. Pela televisão, via o mar. Como queria conhecê-lo! Pular onda, correr pela areia, bracinhos abertos; beber a água, só para ver se era salgada mesmo, viver! A ideia apareceu de repente, como se a vida toda houvesse estado escondida num cantinho do seu cérebro, só esperando uma oportunidade de manifestar-se. Por que não sair dali? Nada a prendia. Na cidade grande haveria mais oportunidades, mais emprego, liberdade. Ah! Como seria feliz... Às escondidas, tratou de juntar dinheiro. Vendeu coisas, calculou, pesquisou destinos possíveis. São Paulo? Não, era grande demais, tinha medo; Rio de Janeiro? O Rio parecia bom, havia o mar, o mar bem pertinho, quase dentro da cidade... Não, não valia a pena. Vida muito cara, pouco sossego. Belo Horizonte? Não, o nome não lhe agradava. Porto Alegre? Não. Londrina? Não, não gostava de café. Curitiba? Sim, Curitiba! Vira um postal da cidade, apaixonara-se. Como era bonito! Nem parecia o mesmo país. Praças bem cuidadas, ônibus enormes, ar meio antigo... É! Iria para Curitiba. Por que não?
Chegou num mês de julho, quando o inverno era bravo; estranhou o clima, ficou resfriada, passou o primeiro mês debaixo de cinco cobertas, enfurnada no pensionato. Diacho de frio comprido! Nunca vira clima assim, vento tão gelado que até assobiava, parecia querer congelar a alma da gente... Não demorou para apaixonar-se pelo pinhão, o vinho doce com gemada, a quirera e a sopa preta, iguarias que conhecera graças à perícia de dona Mirthes que, na cozinha, era verdadeira sumidade. Quando veio a primavera, encantou-se com o florescer das árvores, dos canteiros, das plantinhas de vaso. Até os bichos ficavam mais dispostos, o povo mais bonito... Também, não era de estranhar, depois de um mês tão friento e cinza. No verão, gostava de observar a rua, o movimento, as pessoas. Como era feliz!
Carisma natural, imenso talento para o comércio, a morena decidiu, ao invés de procurar trabalho nas lojas ou fábricas, dedicar-se à venda de bom-bons. Assim poderia aproveitar a rua, enquanto trabalhava; amava o fluxo de pessoas, as belezas urbanas que enchiam-lhe os olhos. Não viera de tão longe para passar oito horas enfurnada numa fábrica, tampouco presa atrás de um balcão, ora essa! Queria vida! Ansiava por conhecer cada cantinho do centro, cada rua, cada comércio, cada praça. Era curiosa, cheia de juventude, disposição... Jeitinho coquete, mil salamaleques no falar, as vendas lhe permitiriam viver bem, ainda que modesta. Seu primeiro ponto foi na XV, pertinho da Confeitaria das Famílias. Às vezes vendia tudo, às vezes sobrava, o importante era não desanimar. De quando em vez, olhada com desconfiança, ouvia comentários infelizes sobre sua pessoa. Sentia-se então muito mal, por que era que falavam assim? Gente estranha, cambada que nada conhecia sobre ela, que nada sabiam de sua vida... Apenas porque não era curitibana? Por seu sotaque bem manauara? Oh! Passava o resto do dia sorumbática, numa aflição de dar pena. Se ao menos pudesse voltar... Antes de vir, pensara em tudo; nas questões financeiras, na qualidade de vida, no dinheiro necessário, economizado com tanto sacrifício. Mas, compreendia agora, o diabo morava nos detalhes. Quando é que poderia imaginar que alguns curitibanos pudessem ser preconceituosos com ela? Quando é que poderia supor, vendo todas aquelas fotos lindas, que o povo, às vezes, era tão egoísta? Chorava, jurava que não ficaria mais, não suportava tal desprezo. O tempo passava, e logo se esquecia; havia também muita gente boa ali.
Ainda que não fosse nada supersticiosa, encarava seu ofício como uma arte que ninguém é capaz de compreender plenamente, dom quase divino, ciência que jamais deve ser desafiada em seus caprichos. Quando começava mal o dia, nem voltava ao ponto depois do almoço. Ia passear, descontrair, visitar as cobras do passeio público, tomar sorvete, fazer exercício. Se já vendera o suficiente, deixava o restinho de sorte para amanhã. Nunca se preocupava demasiado com o futuro, pois aprendera que o futuro cuidaria de si mesmo; "bastava a cada dia o seu próprio mal". Não era assim que a mãe dizia?
Numa manhã quente de sábado, plena de alegria e de riso, fazia ponto no Largo da Ordem quando, sem querer, conheceu o terceiro rapaz por quem viria a apaixonar-se. Moço bonito, todo janota, aproximara-se dela para comprar um bom-bom para a avó, a velhinha decerto havia de gostar. Qual sabor ela sugeria que levasse? Era ela mesma quem fazia os doces? Com aquelas mãozinhas delicadas, apostava como eram deliciosos, verdadeiras iguarias! Os de morango, pareciam tão apetitosos... Embaraçava-a, fazia-a corar. "Nem tanto assim, nem tanto assim", dizia a menina, coqueteando sem jeito. Encontraram-se algumas vezes durante a semana, até engatarem um namorico no sábado seguinte. No começo, sentiu-se feliz, importante. Ele era tão gentil! A levara para comer pastel, depois haviam ido ao cinema... E como tinha um beijo gostoso! Beijava quente, apaixonado... Agora sim, parecia ter encontrado alguém, talvez até casassem um dia. Teria coragem de deixar a pensão? Por um grande amor, achava que teria... Deus ouvira suas preces, tinha certeza...
Três meses depois, todavia, a jovem descobriu que, ainda uma vez, o destino lhe fora cruel. O bom moço, rapaz de tantas qualidades, confessou que na verdade era casado, e até tinha uma filhinha com a esposa. O que fizera para merecer isso? O que fizera? Perguntava a Mariano, já um tanto alterada pelo álcool, pelos sentimentos e lembranças. O amigo tentou acalmá-la, pegou em sua mão, disse que já era passado, ficasse tranquila, não tinha nenhuma culpa... A vida era isso mesmo; o mundo era mau e coisas assim aconteciam a todos e a todo instante, não precisava sofrer desse jeito, onde já se viu? Mas, teimosa, Raquel nada ouvia; resmungava contra os homens, o amor, as ilusões do seu coração. Sua voz, agora meio enrolada, mantinha-se serena, ainda que enjoativa. Falava tanto! Aquele infinito matraquear, misturado à atmosfera do boteco, abafada e meio barulhenta, tornava tudo terrivelmente sufocante.
O homem ansiava por ar fresco, contato com a noite, queria se levantar, sair dali. Poderiam ir a algum lugar mais sossegado, conhecia um barzinho aconchegante e mais silencioso num canto da Tiradentes, por que não? Além do mais, os ruídos de conversa, o bater de copos e a música pareciam estar de combinação; cada vez mais agudos, mais indiscretos, decerto querendo incomodá-lo. Antes que a amiga começasse a chorar outra vez, sugeriu que fossem para fora, tomar a fresca. Havia algumas pessoas na calçada enfrente, ela não ouvia? Também, precisava acender um cigarrinho, não levasse a mal. O movimento estava asfixiante, não achava? Esperasse um minuto, ele pediria a conta e já iam embora. Raquel quis protestar, meio tonta; estava cedo ainda. Para que ir embora? Não, ficassem mais um pouco, a deixasse tomar mais uma batidinha de coco, estava tão gostoso! Que mal havia? Era uma mulher livre! Livre como um passarinho! Livre, repetia, saboreando mole a palavra. O amigo, sem dar-lhe ouvidos, pediu ao garção que somasse a despesa, fizesse favor.
Depois, tomando-a pelo braço, foram saindo devagar, pedindo licença a uns e outros, até atingir a rua em frente. Riachuelo, eterna Riachuelo! Palco de tantos amores, tantas histórias, tantas vidas... Lá fora, a noite era calma, rua quase deserta por causa do frio. Em pequenos grupos, pessoas conversavam, se cumprimentavam, riam de qualquer coisa. Um vento indeciso assoprava fraquinho, carregado de umidade, vindo lá dos lados da Generoso Marques, fazendo volta; punha arrepios nos braços dos poucos boêmios espalhados pela calçada e fazia algumas damas se encolherem nos cantos das marquises, cansadas e sonolentas. Raquel também sentia frio, queria aconchego, precisava de calor. Não o simples calor térmico, não era isso; seu coração pedia calor de afeto, de carinho. Quando terminou de fumar, o companheiro puxou-a mais para perto, sentindo seu corpinho trêmulo junto a si. A moça teve um arrepio; sua mãozinha, magra e gelada, estava entre as mãos quentes de Mariano. Como era bom sentir-se segura, cuidada, protegida...
Passo lento, seguiram pela rua quieta e decadente quase sem falar. Num instante, os dois se deram conta, ainda que não quisessem, de uns laços finos, forjados daquele convívio de algumas horas, que já pareciam fortes e os uniam através do frio da noite. Sem nenhuma pressa, chegaram à Generoso Marques. O cenário não era bonito. alguns viciados, escorados nos cantos ou sentados em trapos e pedaços de coberta, impressionaram a mente frágil de Raquel. Tinha medo, não queria ver, era tão estranho, andassem depressa... Ao mesmo tempo, se dava conta de que vivia há anos apenas para os namoros e o trabalho, não conhecia nada... Sua alma de menina ingênua sentia agora curiosidade infinita, atração quase visceral pela vida, pelas pessoas, pelas coisas que o mundo lhe escondia. Seu universo era tão pequeno...
Por sugestão dele, entraram numa portinha acanhada, perto da galeria. Deram com um pequeno restaurante, quase vazio àquelas horas. Numa mesa meio afastada, um policial comia um cachorro quente caprichado, devia estar com fome; ao balcão, uma senhora tomava café com leite, na certa devia trabalhar ali por perto, enfermeira talvez? Dois homens conversavam à um canto, decerto taxistas que faziam um lanche, não era fácil aguentar a madrugada sem sequer uma boquinha... Muito poderia ser estudado pela sociologia sobre os hábitos dos frequentadores de restaurantes nas madrugadas inóspitas do centro. Notívagos por profissão ou por ocasião, por paixão ou oportunidade, um sem fim de homens e mulheres dos mais diversos tipos, idades e aspirações, se movendo discretos pelas ruas e edifícios: porteiros, enfermeiras, plantonistas, motoristas de ambulância, taxistas, artistas, policiais, vigilantes, motoboys; havia também os insones, os loucos, os desesperados, os vadios e toda sorte de gente de vida obscura.
Os amigos não sabiam bem o que desejavam, além de proteger-se do frio gélido que se avizinhava cada vez com mais ímpeto. Logo que se acomodaram a uma mesa, entretanto, Raquel teve uma crise profunda de choro. O amigo, preocupado, quis saber o que era que lhe estava fazendo tanto mal. Bebera demais, decerto era isso. Ficasse calma, logo passava... Abraçou-a, um tanto sem jeito, receios infundados nem sabia de quê a rondar-lhe o espírito. Perguntou se ela desejava alguma coisa, quem sabe comer algo quente lhe faria bem. Estava friorenta... Não queria nada? Então tomasse ao menos uma água; se acalmasse, ficasse tranquila... Limpando as lágrimas, respondeu que ele não devia se preocupar. Sempre fora sentimental, sentia saudades, medos, tudo com intensidade; sentimentos aterradores, não sabia controlar-se, era de vontade pusilânime... Aliviado, pois sempre fora mais acostumado a lidar com os achaques da mente do que com os desarranjos do organismo, Mariano mandou vir uma bomba de creme, sabia que a moça não resistiria à iguaria. Além disso, o leite, presente na receita, ainda que em pouca quantidade, na certa a fortalecia, sustentava, não deixava que ficasse com fome.
Após comer, já sorrindo, a jovem disse que queria ir embora; estava cansada, desejava dormir, por sorte estava de folga, não precisava levantar cedo. Cairia na cama e dormiria umas dez horas seguidas, estava feliz, não choraria mais; já se sentia leve, leve como uma pluma... Como nenhum dos dois quisesse andar a pé até a pensão, ainda que a distância fosse pequena, tomaram um táxi no ponto da esquina. Corrida curtinha, valia a pena... No carro, continuaram abraçados, mãos dadas, velhos amigos íntimos a trocar afagos ternos no conforto macio do banco de trás.
Ao chegar em frente do velho predinho da Bagdá, construção decrépita que algum dia fora importante, Raquel o convidou a subir. Entrasse um pouco, ficasse com ela, não queria ficar sozinha. Por que pressa? lhe Fizesse companhia, poderiam conversar um pouco mais, queria ouvi-lo... Durante a noite toda, só ela falara! O cego, farejando no ar algo estranho, mas, ao mesmo tempo, querendo imenso acompanhá-la, perguntou sobre dona Mirthes. A velha não havia de estrilar? A menina riu: dona Mirthes? Ah! Devia já estar no décimo sono, bastava que não fizessem barulho... A pobre senhora era até meio surda, ele não sabia? Andasse logo, saísse do frio! A perspectiva o agradava: os dois aconchegados, vento lá fora, cama quente, um rádio chiando baixinho na Ouro Verde, música suave a embalar-lhes os corações... Carícias, palavrinhas belas e vazias, pequenas ousadias... Por que não?
Subiram a escada em silêncio, tomando cuidado para não tropeçar em nada. Agilidade felina, a amiga o conduziu pelo corredor com habilidade perita, quase ansiosa. Ao chegarem a porta do quarto, estavam ofegantes, agitados. Aproximaram-se mais, como prelúdio de algo importante. Como havia de ser bom... Enquanto Raquel procurava nos bolsos a chave, entretanto, ouviram lá de dentro a voz arrastada e mole de André, voz de quem acaba de acordar: "É você, Raquel? Já voltou, amor?". Assustaram-se, a moça deu uns passos para trás. Que diabo! Já sem magia nem carinho, ela o conduziu de volta pela escada, agora sem se preocupar com o barulho que poderia fazer. Abriu a porta da rua depressa, beijou-o de leve e o pôs para fora, prometendo que amanhã conversavam; André era ciumento, não convinha que soubesse que ela saíra com o amigo, nem sabia do que era capaz... A desculpasse, precisava voltar logo para dentro.
Bengalando mole, sem vontade, Mariano cruzou o centro; desejava ir até à Rui Barbosa, pegar o madrugueiro. Não iria pagar táxi até em casa, de jeito nenhum... Precisava andar, pôr a cabeça a funcionar, dissipar toda sua raiva nas frias esquinas da madrugada brumosa. Ao fim da caminhada, meia hora depois, já não tinha ódio de ninguém. Embarcou no ônibus barulhento, estava quase feliz; ria do absurdo e refletia, lá consigo que, não fosse aquele final insólito, a noite teria sido grande!

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Sobrevivência em dia de chuva

Dormiu; dormiu pesado, intenso, um desses sonos tão raros e revigorantes para os insones. Despertou no meio da madrugada, já não sentia nenhuma inquietação. Sempre conseguira ganhar a vida, de uma forma ou outra. Os anos longe pareciam tê-la enfraquecido, mas, não duvidava, era capaz de voltar a ter a mesma disposição de antes. Animada com tais perspectivas, levantou, em sua imaginação, mil castelos de sonhos e ideias. Já via a si mesma a trabalhar, vida tranquila, usando a astúcia para driblar as dificuldades cotidianas, seria feliz. Brotaram-lhe na mente mil soluções, não precisava entregar-se ao desânimo. "Pensamento positivo", repetiu, como um mantra; já sentia-se bem, não havia mais medo do futuro. Nada há, nesse mundo, melhor do que umas boas horas de sono, longas e relaxadas, para organizar os pensamentos e trabalhar em novos projetos, não importa se possíveis, se viáveis, se simples, complexos ou irrealizáveis. Sim, ao acordar, sentia-se como que uma nova pessoa, capaz de façanhas que, no dia anterior, ter-lhe-iam parecido loucura. Ainda assim, entendeu que não era prudente alimentar ilusões acerca da natureza e do carácter do mundo, mau e frívolo como sempre fora e seria até o fim dos tempos.
Entre sonhos e devaneios, as horas passaram depressa. O dia seguinte amanheceu frio; a chuva, fininha e gelada, continuava a cair com ímpeto e o céu do centro, cinza de fumaça, permanecia carregado como no dia anterior; o ar, entretanto, estava fresco e agradável. Antes de se levantar, Angelita fez o que, desde que chegara a Curitiba, ainda não fizera: falando como se a um velho amigo, ergueu os pensamentos ao infinito, numa oração a Deus. Desde menina, suas orações não tinham o tom de súplica, tampouco a referência artificial que aprendera na Igreja. Nunca se dirigira ao divino na segunda pessoa, nem usara de palavras difíceis e enroladas, não queria impressionar. "Tu abençoaste", "tu ouviste", "vós sois a luz", nada disso falava-lhe ao coração. Suas rezas eram indecisas, mas sinceras. Agradecia, pedia, contava coisas; de quando em vez, numa intimidade a qual não se atreveram nem mesmo os antigos sábios, profetas e apóstolos, ralhava com Deus. "Ele não via o que estava acontecendo?", "Fizesse o favor de resolver aquilo logo, estava pensando o quê?"... Na maior parte do tempo, porém, limitava-se a breves monólogos, não queria abusar da paciência dos céus.
Depois de um "Amém" meio apressado, deixou a cama sem demora. Dobrou o cobertor com jeito, sentindo a aspereza do pano sob os dedos; escolheu, na velha mala, uma roupa simples, mas muito ajeitadinha. Pasta de documentos e currículos na mão, sorriso amigo, esperança a sustentá-la em tudo aquilo, estava pronta. Desceu sem pressa, tomou café ali mesmo na Bagdá, dando "bom dia" a uns e outros, um tanto tímida. Ainda não conhecia ninguém, sentia-se um tanto deslocada. Percebeu, num instante, o ruído monótono das conversas, a televisão ligada num canto, os olhares de curiosidade em sua direção... De repente, toda a timidez de menina voltou a assombrá-la, como velho agouro mau. Por que sentia-se assim? Sempre insuficiente, sempre inferior, sempre pensando que estava a incomodar os outros... Não podia; não, não naquele dia. Precisava manter o otimismo, a ilusão que, tão cuidadosamente, criara para si mesma nas últimas horas.
Por que estava tão ansiosa? Mesmo se não conseguisse emprego logo, daria um jeito. Em último caso, poderia sempre procurar dona Rosana, por que não? Era tão boazinha, havia de ajudá-la. Não... Isso Angelita não fazia. Não conseguiria mais, sabia, não teria forças para tanto... Antes de sair, parou um instante, hesitando. Com o rabo do olho, viu quando, na televisão, a Comceição Forno e Fogão, velhinha simpática e meio doidivanas, ostrava um frango recheado, decerto era gostoso. Ouvia-a tagarelar sobre o prato, dizendo mil maravilhas, e como era fácil de fazer! Viu a farofa, muito amarelinha, pedaços de bacon, tomate para não ficar seco, pedacinhos miúdos nem sabia do quê, enfeitando tudo. Salivou, teve vontade de provar aquela comida. Lembrando-se de que não jantara, sentiu fome. O café, preto e amargo, consumido com pressa, fê-la revirar o estômago. Esqueceu aquilo. Saiu, ainda cismando, sabia o que precisava fazer. Ao longo da semana, com denodo e atenção, anotara endereços de várias agências de emprego pescados na internet, percorreria todas. Curitiba era enorme, lugar de tanta oportunidade!
Lépida, coração lúcido, seguiu pelas ruas tão conhecidas. Passou pelo tubo, desviou de uma carrocinha de papelão, atravessou a Nilo Cairo, passinho confiante e lampeiro. Já não chovia; as ruas estavam úmidas e frias, as calçadas ásperas e cheias de poças d'água. Dos bueiros, desprendia-se um cheiro muito característico, impossível de ignorar. Cheiro de esgoto, de água podre, capaz de enojar mesmo os mais resistentes. Debaixo da cidade, em meio aos ratos e baratas, acumulava-se toda a sujeira, todas as marcas de décadas e décadas de abandono, poluição, indiferença. O que a prefeitura poderia fazer? O que qualquer um poderia fazer, diante da desolação revelada pela chuva? Ignorar, ignorar sempre, fazer de conta que nada havia. Para que pensar nessas coisas? Dobrou na Pedro Ivo, caminhou um pouquinho, atravessou ruas; chegou ao prédio, pensamento quase feliz.
Pegou senha, esperou na fila, fez cadastro, foi atendida, nada havia para si. As vagas estavam escassas, logo apareceriam novas oportunidades, não ficasse aflita. Estava tão confiante de conseguir ao menos uma entrevista... "Não tem nada mesmo, moço? O senhor tem certeza? Preciso tanto..." Silêncio, indecisão. O servidor digitou, clicou, preencheu algo... De chofre, perguntou sobre suas habilidades. Habilidades? Bem... Bem, ela... Não soube o que responder. Que habilidades tinha? Os quitutes que aprendera a fazer com a mãe? Não, isso não servia. O tempo que trabalhara na rodoviária de Quitandinha? Tampouco. Semblante triste, murmurou qualquer coisa. Vendo-a assim, o moço mandou-a embora, voltasse outro dia, não podia fazer mais nada. Saiu cabisbaixa, teve ímpetos de chorar, conteve-se. Por um momento esquecera que as grandes fantasias precedem sempre as grandes ilusões, por isso sofria. O que estava pensando? Que arranjaria trabalho no primeiro dia? Não... O mundo nunca fora fácil.
Visitou outras agências ali no centro, onde a mesma cena se repetiu, apenas com pequenas variações. Numa delas estava a ponto de conseguir trabalho numa lanchonete, mas, no último momento, um desarranjo com os documentos fê-la perder a oportunidade da entrevista. A chuva voltou a cair grossa, e o frio cortante, devagarinho, minava todas suas energias. Ainda assim, continuou a procurar trabalho. Viu, numa vitrine, que uma loja de roupas precisava de vendedora. Entrou. Apresentou-se com seu melhor sorriso, tentou fazer-se simpática. A dona, uma senhora estrangeira de sotaque forte, a repeliu sem sequer terminar de ouvir o que ela tinha a dizer. À saída, topou com uma mocinha que vendia bombons, ela não queria experimentar um? Viu, protegidos num isopor, bombons embalados em papel colorido, como num mosaico de várias cores: verdes, decerto de limão; vermelhos, de morango ou cereja; cinzas, amarelos, brilhantes, marrons...
Notando seu olhar guloso, a mocinha pôs-se a falar. Eram os melhores bombons da cidade, ela sabia? E com um frio daqueles, um docinho sempre ia bem... Voz melíflua, rostinho moreno e jeito criança, contou que viera do Amazonas, tentar a vida em Curitiba. Ia vivendo, graças a Deus, ia vivendo... E então, ia comprar um docinho? Fizesse favor, não iria se arrepender, ela precisava vendê-los para pagar o aluguel, as despesas, como a vida estava cara! Como num murmúrio, segredou: "Sabia que meus doces trazem sorte? Às vezes, adoçar a vida é a única coisa que precisamos, para que as coisas melhorem...". Falava como vendedora, mas punha nas palavras tal confiança, que Angelita não pôde deixar de acreditar. Hesitou um instante, pediu um de morango, pensou em comê-lo mais tarde. Com o frio, o chocolate decerto não derretia logo. Pagou e já ia se afastando quando, numa inspiração, perguntou o nome da vendedora. Raquel, senhora, chamava-se Raquel...
Perto da hora do almoço, sentia-se fraca, molhada e friorenta. Precisava comer, estava com a alma gelada, queria cama, queria colo, queria que alguém cuidasse dela. Mas, endurecendo o semblante, lembrou que já não havia ninguém que lhe pudesse valer. Na esquina da Tiradentes, Viu uma banca que vendia salgados e café. Aproximou-se, pediu um pastel de carne, dos grandes; queria também um copo de café com leite, bem docinho, fizesse favor. Não andava boa do estômago, não convinha abusar do café preto... O calor do copo em suas mãos e o cheiro do pastel fizeram-lhe bem. Terminou de comer, pediu mais um, devorado logo, com apetite. Já não comia por fome, mas por ansiedade. Enquanto comesse, não precisava pensar; e enquanto não pensasse, não sofria... Diabo de personalidade frágil! Detestava, em si mesma, as fraquezas próprias de sua índole. Como queria ser forte de verdade, ser capaz, de verdade, de deixar de lado todas as apreensões... A menina Raquel, viera de tão longe! E estava ali, vivendo, agindo, procurando seu lugar ao sol... Seria possível que apenas ela, Angelita, não era capaz de fazer o mesmo?
Barriga cheia, resolveu voltar à Bagdá. Não tivera tempo de ir ao banco, conforme planejara; mas, com um tempo feio daqueles, o banco que esperasse, ainda tinha algum dinheiro consigo. Precisava se esquentar, daquele jeito era capaz de pegar uma friagem... Cruzou a Generoso Marques num passo apressado, desviando das pessoas com seus guarda-chuvas, cuidando para não pisar nas poças, olhos abertos a observar o nada. Na entrada da galeria Andrade, estacou. Um cego, bonachão e sorridente, tocava afinado um acordeon, enquanto cantava antigas músicas regionais que ela conhecia. Aquela ali, lembrava-se bem, era do Teixeirinha... "Deus é gaúcho, de espora e mango; foi Maragato, ou foi Chimango..." Onde já vira aquele homem? Não lhe era estranho, mas, de onde? Puxou pela memória, cismando. Tinha certeza de conhecê-lo... O movimento, indiferente, continuava. Pessoas passavam, algumas se detinham um instante, a escutar. Havia quem pusesse, numa caixinha ao lado, algumas moedas e notas de pequeno valor para colaborar com o artista.
Pôs-se inquieta, como se, no íntimo, a música lhe despertasse velhas reminiscências, ecos de outro tempo. Procurou na bolsa alguns trocados, aproximou-se, gostava de arte, de emoção, de coisas bonitas. "A música era a língua dos anjos!", alguém dissera um dia. Ela concordava... Com cuidado, depositou sua contribuição; era pouco, mas decerto o homem havia de arrecadar mais, ao longo da tarde. De onde era que o conhecia? Não se lembrava, mas; cedo ou tarde a lembrança aparecia, tinha certeza. Seguiu para a pensão com o coração mais leve, embora ainda tenso de preocupação, de pessimismo. O dia parecia quase noite, com a chuva que caía do céu escuro e carregado. Seus pés, agora totalmente molhados, punham-lhe arrepios no corpo todo, aumentando sua desolação. Estava perto, já estava tão pertinho... Chegaria logo, tomaria um banho, o cobertor decerto a receberia com o mesmo aconchego de sempre.
Mais tarde, enquanto o vento continuava a soprar lá fora, Angelita pensou na chuva. Chuva muito curitibana, até parecia criança. Caía fina, pequenos salpicos de umidade, garoinha quase. Quando todos pensavam que o sol iria aparecer, tornava-se de novo grossa e barulhenta, como que a desafiar as pessoas que, cara feia e guarda-chuva em punho, dispunham-se a enfrentá-la. Salpicava os postes, as paredes, encharcava o chão, lavava as calçadas, irritava os mendigos que, carrancas de desânimo, tentavam proteger-se nas marquises. Chuva fria, vento cantando lá fora, inverno bravo, céu carregado e escuro, atmosfera dura e desesperançada naquele monótono e sensaborão mês de julho. De repente, num pequeno sobressalto, lembrou-se: o cego, não era outro senão o Cubas! O velho cego Cubas, agora lembrava-se com detalhes. Seria ele, mesmo? Não sabia, já haviam se passado tantos anos! O quê? Lá se iam quinze, dezesseis anos no mínimo...

terça-feira, 21 de abril de 2020

Signo da saudade, estrela de ilusão

O dinheiro, coisa tão rara e necessária nesses tempos, ia minguando, minguando devagarinho, desde que partira de Florianópolis. O que iria ser dela, então? Precisava começar vida nova. Mas, como? Como lutar pela sobrevivência quando, no fundo do coração, não se sentia capaz de o fazer? Onde estaria seu ímpeto? Onde aquela vontade, aquela força? Onde se escondera sua coragem? Perguntas que já nascem sem resposta. Amanhã... amanhã iria ao SINE, deixar currículo, tentar a vida. A agência seria ali na Monsenhor Celso, ainda, onde se lembrava? Trataria de descobrir. Não exigia nada, precisava apenas de um emprego. Vendedora de loja, atendente de telemarketing, entregadora de panfletos, operadora de caixa... Qualquer coisa que lhe permitisse pagar o quarto e alguma despesa, não precisava de lucho para viver. Havia mães de família, sabia! Capazes de sustentar a si e aos seus apenas com um modesto salário mínimo. Por que não havia de fazer o mesmo?
Sentiu fome, não quis voltar ao pensionato. Desceu a rua sem vontade, parou numa banquinha, comprou a tribuna. Dobrou na João Negrão, entrou numa pequena lanchonete, sentou-se à uma mesa meio bamba, pediu café, pôs-se a ler. Esportes, fofocas, loterias, presepadas do governo, mal-feitos de um e outro figurão, bobagens... Cacete! Nada a interessava... Quando seus olhos bateram no horóscopo, não pode deixar de sorrir. Aprendera com a mãe, desde mocinha, a ouvir os palpites dos astros, em geral pelo rádio, e segui-los. Assim começou seu misticismo, um misticismo muito próprio, quase pueril, que lhe fazia bem. Ao ler o nome da astróloga, por pouco não deu um pulo. Era a dona Dirce! A mesma dona Dirce de sua adolescência, a quem chegara, certa vez, a enviar uma cartinha, com pseudônimo, para pedir conselho. Tudo passara, mas a astróloga continuava ali... Será que existia ainda o bom dia astral, na rádio Colombo?
Desde a adolescência, não deixara de consultar o horóscopo um só dia. Deixara Quitandinha, deixara também os velhos hábitos, matara um sem fim de fantasmas da infância. Mas, seu gosto por estes pequenos palpites de rádio e jornal, quanta vez sem base nenhuma, continuara a florescer... Logo depois da morte da mãe, lembrava-se bem, obstinara-se em seguir os astros, mesmo nas menores coisas. Assim, sentia, era capaz de se aproximar dela, ouvi-la através das estrelas. Sorriu ao recordar; tia Cláudia, Yasmin, ninguém entendia direito o que ela via demais naquele amontoado de frases feitas, declamadas com voz austera, quente e bem timbrada ao microfone da 1020; dona Dirce tinha voz de mãe... O que não sabiam, não, o que ninguém sabia, é que, quando acompanhava seu signo, Angelita sentia como se a finada mãe falasse diretamente ao seu coração. O breviário e os almanaques eram suas únicas lembranças de dona Timótea, e, como sentia saudade!
Saudade de quando a mãe falava com ela, pedindo que batesse o bolo, olhasse o forno, desse milho às galinhas; saudade das tardes em que, as duas perto do tanque, faziam sabão de casa, sabão forte e caprichado, que, depois de seco, separavam em pequenos pedaços; saudade de vê-la perto da mesa, avental sujo de trigo, amassando pão, fazendo macarrão de casa, dando forma às coxinhas que seu Jerônimo encomendara. Nunca havia de esquecer quando, numa tarde em que o serviço estava apurado demais, se oferecera à ajudá-la, dizendo que era capaz de modelar os salgadinhos tão bem quanto ela. Mal começara, a mãe a espantara dali com tremendo repelão, nunca vira coxinhas mais feias, pareciam batatas! Dois dias depois, as duas ririam juntas do incidente, enquanto, paciência infinita, dona Timótea a ensinava, pegando suas mãozinhas, o jeito certo de modelar os salgados para que ficassem gostosos e nada massudos. Nos dias em que a mãe estava mais nervosa do que o costume, Angelita e Neguinha passavam a tarde lá na beira do rio, olhando a água, arrancando matinhos, esperando que as coisas se acalmassem. Como sentia saudades, mesmo daqueles dias tensos. Quando ela morreu, ficou triste ao pensar que jamais ouviria outra vez seus pitos, ralhos e achaques.
Os quitutes de sua infância, tão famosos na cidadinha, também se acabaram. A mãe nunca gostara de fórmulas prontas, tampouco tinha seu próprio caderno de receitas. "Não preciso anotar o que faço toda a vida", argumentava, com alguma razão. "Cosinha é simples, repetitiva, a gente decora e faz tudo até sem sentir". Assim, morreram com ela os sonhos caseiros, as cocadas, os tijolinhos de abóbora, os pães de mel, a famosa cuca de banana e farofa, o seu doce preferido. Nunca mais Angelita provaria coisa igual, sabia; doces com gosto de infância, de carinho, devorados devagar, boquinha ávida pelo sabor, querendo que o gosto bom não acabasse mais... Adulta, conhecera muitas confeitarias famosas; confeitaria das Famílias, ali na XV; confeitaria Rosinha, nem sabia direito onde; Café Curitibano, aquele perto da Biblioteca Pública... Doces deliciosos, ambientes incríveis, glamour em cada detalhe. Nada, porém, se comparava aos doces tão simples de sua mãe, que nunca mais poderia provar de novo.
Ao ler seu signo, desanimou. Entrara no alerta, o tempo não estava propício para negócios e emprego, tomasse cuidado com as finanças, tempos sombrios se aproximavam. "Paciência", pensou, virando a página depressa. Procurou o setor policial, desde menina se interessava pelos crimes, descalabros humanos, desarranjos sociais. NOtícias dos mais terríveis crimes saltaram-lhe aos olhos, mas não a surpreenderam em nada; assassinatos no CIC, furtos cada vez mais frequentes no centro, tóxicos dominando vilas inteiras, desmanches de carro no Boqueirão sendo desmantelados, jovens presos, gente com medo, assaltos aos ônibus, violência no trânsito, a criança atropelada por um motorista bêbado, a mulher queimada pelo companheiro, o canil clandestino que criava pitbulls de forma desumana, o homem morto a facadas na frente do filhinho de cinco anos, a neta que tentara envenenar a própria avó... "Que diabo!" pensou, "até parece que as pessoas estão virando feras!". Pensou melhor: "Não, não parece... As pessoas são ainda piores do que as feras selvagens, porque tem raciocínio... Ela não tinha visto isso, quando criança?". Sentiu raiva, impotência perante um mundo insano, terrível e indiferente no qual era obrigada a viver.
Como nada mais a prendesse na rua, voltou à pensão perto da hora do almoço, sentia-se indisposta. Tentou ouvir rádio, irritou-se com o barulho; desceu à sala, estava vazia; quis ler um romance de banca que comprara ali na esquina, não passou do segundo capítulo. por fim, deitada, olhinho quase fechado, deixou-se dominar por uma modorra gostosa, sentindo o cobertor em contato íntimo com sua pele; ouvia a chuva fina que caía lá fora, os carros na rua, o zunzum indefinido da televisão ligada no quarto vizinho; pensou, lá consigo, que a vida não era assim tão ruim, a final de contas. Antes que o sono a dominasse por completo, ainda ouviu a velha, sua companheira de quarto, chegar da rua com passos pesados, gemendo e se queixando do tempo feio.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Recordações do irmão morto

Quando a tarde ia morrendo, preparavam tudo para a chegada do pai e do irmão, que trabalhavam na cooperativa. Ouvindo a hora do Ângelus, a mãe mexia nas panelas, punha os pratos na mesa, murmurando as orações há muito decoradas. Angelita, que, criança, não tinha paciência para rezar, ficava por ali, às voltas com qualquer coisa. Às vezes, as filhas da vizinha vinham chamá-la para brincar na frente de casa. Ela ia, embora não gostasse. Observava as outras crianças, pareciam felizes, satisfeitas; será que conheciam as maldades do mundo? As traições do destino, que lhe atormentavam? Será que a Zoraide, a Aninha, a Jéssica, passavam pelo que ela, Angelita, passava em casa, de vez em quando? Tinha quase certeza de que não; mesmo assim, era tímida; mais do que isso: sabia que não devia contar, não devia... Não, nem mesmo à mãe. Havia coisas que, julgava, tinha de enfrentar sozinha... Sofrer em silêncio; e, afinal, nem era tão ruim, era? Sua mente infantil, sempre assustadiça, tentava racionalizar.
De repente o sol se punha, já era escuro, quase noite; um ou outro grilinho, tímido, começava a cantar, escondido ali por perto. As crianças se recolhiam, aos chamados esganiçados das mães; os gritos cessavam, a rua ficava parada, escura, rua deserta e sem vida, tão comum nas cidades do interior. Um ventinho frio vinha vindo lá dos lados do Rio da Várzea, brincando com o pó da rua sem calçamento. Coração aos saltos, a menina, sempre com sua cachorrinha, esperava o irmão, que já devia estar chegando. Quando ele e o pai vinham juntos, seu coraçãozinho de criança se sentia aliviado. Eles decerto haviam de descansar um pouco, ali na área, enquanto contavam fatos da cooperativa, histórias dos companheiros, coisas para fazer no dia seguinte. Se estivesse de bom humor, quem sabe o pai não implicasse com ela nem com a mãe, como seria bom... Mal ouvia o ronco da velha Belina branca, corria abrir o pesado portão de madeira, que gostava de ringir; então esperava, Neguinha ao seu lado, na expectativa.
O irmão desembarcava primeiro, e, mal o via, corria para encontrá-lo, tagarelando. Sentia o cheiro do irmão, cheiro de cigarro, óleo diesel, suor. Seria capaz de confiar em qualquer homem que tivesse aquele cheiro, cheiro de Leandro quando chegava do trabalho. Nunca encontrou nenhum. O mano, bruto e meio sem jeito, passava a mão pelos cabelos da irmãzinha, aquela mão calosa, grande e pesada, que, para ela, significava proteção e carinho. "Que o mano trouxe?", perguntava, rostinho ansioso e alegre. Quase sempre, trazia-lhe alguma coisa: um punhado de balas, um pirulito, às vezes um chaveiro da cooperativa, um boné que sobrara dos uniformes, um ímã de geladeira dos que a cooperativa dava de brinde aos clientes, coisas assim. Certa vez, num verão demasiado quente, trouxe-lhe um Chambinho, em formato de coração. O sorvete, saboroso e muito cor-de-rosa, foi o último agrado que recebeu dele. Dois dias depois, estaria morto.
Tantos anos já se haviam passado, mas a dor ainda era grande demais. De repente, tudo se tornou sufocante: a coberta, o pensionato, as paredes que a oprimiam. Levantou-se tensa, angustiada, precisava de ar. Ignorando o regulamento, acendeu um cigarro, mãos trêmulas, olho lacrimoso. Fumou diante da janela aberta que dava para a rua, rezando para a velha da cama ao lado não acordar. Espreguiçou-se, tentou relaxar, não conseguiu. Andou pelo quartinho, três passos, sentiu-se presa. Ouviu o bater de xícaras, vozes animadas; lá em baixo, na cozinha da pensão, decerto alguns hóspedes já tomavam café. E ela, o que iria fazer? Vestindo-se devagar, saiu para a rua. Pensou em ir à Igreja ali do Guadalupe, precisava de alento, de calma, paz. A Igreja, porém, ainda estava fechada. Sem rumo nem vontade, acabou por sentar-se num dos bancos da Senador Correia, cansada demais para fazer o que quer que fosse. Olhou a praça decrépita, passeou os olhos pela paisagem suja, viu um bêbado que dormia lá a diante, um grupo de meninas com uniforme do Estadual, um cão, um jovem casal apressado levando um menininho, ônibus e mais ônibus, carros e mais carros, num barulhento inferno urbano.
Enquanto a cidade bulia incessante, em seu íntimo, fatos longínquos vieram à tona; miudezas, insignificâncias, coisas das quais nem se lembrava mais. Fragmentos de frases, palavras, imagens, cheiros, acontecimentos. Banalidades e mais banalidades, numa sarabanda desordenada, assombravam-lhe o espírito, fazendo-a sofrer. Por que lembrar? Para que se torturar assim? Já fazia tanto tempo! Devia era esquecer logo, aquelas bobagens de menina... Sua vida era diferente, agora; já não era criança, nem vivia mais naquele mundo. Então, para que cultivar o sofrimento? Tudo morrera, ao fim e ao cabo... A infância, a cachorrinha, o irmão, o pai, a mãe, as ilusões. Jamais regressaria à Quitandinha, bem sabia; mas, tinha saudades... Saudades até mesmo dos sofrimentos. Como explicar isso? Tudo aquilo do qual tanto lutara para se livrar, provocar-lhe saudades? Sentimento? Não...